Reflexões sobre a Páscoa e a oportunidade de transformações

Os registros mais antigos sobre a páscoa remontam os antigos povos pagãos europeus da Idade Média, que com a passagem do inverno para a primavera homenageavam Ostara, também chamada de Ostera ou Esther (em inglês, a palavra Páscoa é traduzida por “Easter”), deusa da Primavera, que carrega em um ovo em suas mãos, como prenúncio de nova vida, e observa um coelho, que é o símbolo da fertilidade. Muito antes de ser considerada a ressurreição do Cristo, já representava a transição de um tempo de trevas para um novo de luz, festejando a deusa Ostara e a fertilidade, em um tradicional e antigo festival pagão que reverenciava o evento sazonal equivalente ao Equinócio da primavera.

Na tradição cristã, a páscoa é a celebração que traz a percepção da renovação e recomeço para nossas vidas. A semana santa é o período do ano quando rememoramos os últimos passos da vida do Cristo até o domingo de páscoa, dia de sua ressurreição e de celebração da sua passagem pela morte. Esta data, para os cristãos, simboliza, por analogia, a constante oportunidade de reforma íntima a partir da investigação mais atenciosa do nosso momento.

Mas a origem da celebração da páscoa cristã está na páscoa judaica. O “Peschad” é a comemoração hebraica da libertação de seu povo da escravidão do Egito e da passagem pelo Mar Vermelho até a terra prometida, ambas as conquistas realizadas sob a liderança de Moisés. É o momento em que imperam o regozijo e alegria pelo triunfo da liberdade, pelo direito de assumir as próprias identidades, culturas, ritos religiosos, suas terras, seus lares: são a recordação e a afirmação de que se pode ser livre e se pode vencer qualquer força que nos queira dominar e escravizar. Dessa forma, a páscoa judaica celebra a passagem que propiciou àquele povo liberdade, identidade e vida nova, muito mais do que atravessar o mar e chegar a uma nova realidade, mais do que romper as barreiras de um território geográfico.

Na páscoa cristã, o êxito do povo judaico em sua nova condição de vida passa a significar o renascimento de Jesus, após sua peregrinação, julgamento e crucificação por aqueles que se julgavam poderosos. Aqui, a humanidade tem seu maior exemplo da necessidade de realizar as ininterruptas passagens que na vida devem ser naturalmente desempenhadas. Esta data tão marcante para os calendários religiosos tem também a função de despertar os corações e as consciências para o Cristo ressuscitado e para o que isso significa.

Constantemente, vivenciamos novos e diferentes desafios de foro íntimo, muito similares em empreitada e grandiosidade ao êxodo judaico. Estamos frequentemente enfrentando crises naturais que nos obrigam a assumir novas responsabilidades diante da vida; que nos exigem a manifestação de uma maior autonomia e liberdade interior. Nesses instantes é preciso descobrir um novo jeito de ser humano, de abandonar a antiga condição de existência em prol de uma nova: são os convites às reformas íntimas e às passagens que devemos realizar em nossas vidas.

Esses chamados são diários. Para isso, é fundamental a renovação das razões e dos fundamentos que nos constroem seres humanos, que nos tornam vivos, agregando sentido aos passos que damos ao longo de nossa jornada. Não é possível a construção e subsistência de um novo Homem com motivações e pensamentos do velho Homem que fora ontem. Isso também significa afastarmo-nos da identidade e das motivações que mantinham aquele velho ser humano de pé. São constantes movimentos de iluminação das sombras, que só sobrevivem em nós quando as alimentamos. E aqui surge a beleza da presença da páscoa em nossos espíritos, pois reproduz o processo de Jesus em nós, materializando-se nas passagens que propiciam a um novo sentido de realidade; porque conseguir perceber a própria vida, compreendendo a própria situação e identificando as libertações que precisamos viver a partir da mítica do ressuscitado, representa agir com autonomia, que é a expressão máxima do viver em liberdade.

Assim como os judeus conduzidos por Moisés conquistaram Canaã, a terra prometida, nós também podemos realizar nossas passagens e conquistarmos a nossa libertação e transposição dos mares que nos amedrontam, nos escravizam e nos apequenam em egoísmos, mesquinharias, vaidades, altivez, arrogâncias, prepotências e ilusões de autossuficiência. A ação é o único jeito, ou o jeito novo, de buscarmos o que desejamos, alcançando verdades e consciências mais nobres, mais próximas da egrégora de Jesus, que é a verdadeira proposta da páscoa, e que depende inteiramente das nossas iniciativas. E mesmo quando julgamos impossível atingir alguma nova condição necessária à um determinado recorde de nossa vida, é fundamental lembrarmos e termos cravado em nossa lucidez que tudo é possível, inclusive os supostos impossíveis; mas esses, só serão ultrapassados depois de termos feito tudo que era possível ser feito. É preciso seguir com coragem e movimento. Sempre!

Portanto, aproveitemos a oportunidade de renascimento deste momento para identificarmos como estão os nossos afetos e quais são as libertações que precisamos fazer para realizarmos nossa próxima passagem. A força da páscoa é a força do Cristo ressuscitado em nossos corações. O domingo de páscoa é o momento em que ritualizamos essa força do Cristo ressuscitado, materializando transformações para uma vida inteira. Então, para você que chegou até aqui, fica a seguinte indagação: qual é a passagem necessária a ser feita em sua vida?

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